Bíblia Portuguesa Mundial (Brazilian Portuguese)
Clementine Vulgate, 1598
1Aconteceu que sete irmãos e sua mãe foram presos por ordem do rei e tratados vergonhosamente com açoites e cordas, para obrigá-los a provar a abominável carne de porco.
1Contigit autem et septem fratres una cum matre sua apprehensos compelli a rege edere contra fas carnes porcinas, flagris et taureis cruciatos.
2Um deles tomou a palavra e disse: “O que você pretende perguntar e saber de nós? Estamos prontos para morrer antes que transgredir as leis de nossos antepassados.”
2Unus autem ex illis, qui erat primus, sic ait: Quid quæris, et quid vis discere a nobis? parati sumus mori, magis quam patrias Dei leges prævaricari.
3O rei ficou furioso e ordenou que aquecessem frigideiras e caldeirões.
3Iratus itaque rex, jussit sartagines et ollas æneas succendi: quibus statim succensis,
4Quando ficaram imediatamente quentes, ordenou que cortassem a língua daquele que havia falado em nome dos irmãos, arrancassem-lhe o couro cabeludo e cortassem suas extremidades, enquanto os outros irmãos e a mãe assistiam.
4jussit ei qui prior fuerat locutus amputari linguam, et cute capitis abstracta, summas quoque manus et pedes ei præscindi, ceteris ejus fratribus et matre inspicientibus.
5Quando ele já estava completamente mutilado, o rei ordenou que, ainda vivo, fosse levado ao fogo e assado na frigideira. Enquanto a fumaça da frigideira se espalhava, os irmãos e a mãe encorajavam uns aos outros a morrer nobremente, dizendo:
5Et cum jam per omnia inutilis factus esset, jussit ignem admoveri, et adhuc spirantem torreri in sartagine: in qua cum diu cruciaretur, ceteri una cum matre invicem se hortabantur mori fortiter,
6“O Senhor Deus vê e verdadeiramente se compadece de nós, como Moisés declarou em seu cântico, que testemunha contra o povo face a face, dizendo: ‘Ele terá compaixão de seus servos.’”
6dicentes: Dominus Deus aspiciet veritatem, et consolabitur in nobis, quemadmodum in protestatione cantici declaravit Moyses: Et in servis suis consolabitur.
7Depois que o primeiro morreu dessa maneira, levaram o segundo para ser ridicularizado. Arrancaram-lhe a pele da cabeça juntamente com os cabelos e perguntaram: “Você vai comer antes que seu corpo seja castigado membro por membro?”
7Mortuo itaque illo primo hoc modo, sequentem deducebant ad illudendum: et cute capitis ejus cum capillis abstracta, interrogabant si manducaret, priusquam toto corpore per membra singula puniretur.
8Ele respondeu na língua de seus antepassados: “Não.” Por isso sofreu, em seguida, a mesma tortura do primeiro.
8At ille respondens patria voce, dixit: Non faciam. Propter quod et iste, sequenti loco, primi tormenta suscepit:
9Quando estava no último suspiro, disse: “Você, criminoso, nos liberta desta vida presente; mas o Rei do mundo nos ressuscitará, a nós que morremos por suas leis, para uma renovação eterna da vida.”
9et in ultimo spiritu constitutus, sic ait: Tu quidem scelestissime in præsenti vita nos perdis: sed Rex mundi defunctos nos pro suis legibus in æternæ vitæ resurrectione suscitabit.
10Depois dele, o terceiro foi feito objeto de zombaria. Quando exigiram sua língua, ele a estendeu rapidamente e apresentou corajosamente as mãos,
10Post hunc tertius illuditur, et linguam postulatus cito protulit, et manus constanter extendit:
11dizendo com nobreza: “Recebi estas coisas do céu. Por causa de suas leis, eu as desprezo, e dele espero recebê-las novamente.”
11et cum fiducia ait: E cælo ista possideo, sed propter Dei leges nunc hæc ipsa despicio, quoniam ab ipso me ea recepturum spero:
12O próprio rei e os que estavam com ele ficaram admirados com a coragem do jovem, pois ele considerava as dores como nada.
12ita ut rex, et qui cum ipso erant, mirarentur adolescentis animum, quod tamquam nihilum duceret cruciatus.
13Depois que ele também morreu, torturaram e maltrataram vergonhosamente o quarto da mesma maneira.
13Et hoc ita defuncto, quartum vexabant similiter torquentes.
14Quando estava perto da morte, disse: “É bom morrer pelas mãos dos homens tendo a esperança dada por Deus de que seremos ressuscitados novamente por ele. Para você, porém, não haverá ressurreição para a vida.”
14Et cum jam esset ad mortem, sic ait: Potius est ab hominibus morti datos spem exspectare a Deo, iterum ab ipso resuscitandos: tibi enim resurrectio ad vitam non erit.
15Depois dele, trouxeram o quinto e o maltrataram vergonhosamente.
15Et cum admovissent quintum, vexabant eum. At ille respiciens in eum,
16Ele olhou para o rei e disse: “Embora seja mortal, você tem autoridade entre os homens e faz o que quer. Mas não pense que nossa raça foi abandonada por Deus.
16dixit: Potestatem inter homines habens, cum sis corruptibilis, facis quod vis: noli autem putare genus nostrum a Deo esse derelictum:
17Continue assim e verá como seu soberano poder castigará você e seus descendentes!”
17tu autem patienter sustine, et videbis magnam potestatem ipsius, qualiter te et semen tuum torquebit.
18Depois dele trouxeram o sexto. Quando estava prestes a morrer, disse: “Não se engane inutilmente. Sofremos estas coisas por causa de nossas próprias ações, porque pecamos contra nosso Deus. Por isso nos aconteceram coisas espantosas.
18Post hunc ducebant sextum, et is, mori incipiens, sic ait: Noli frustra errare: nos enim propter nosmetipsos hæc patimur, peccantes in Deum nostrum, et digna admiratione facta sunt in nobis:
19Mas não pense que ficará sem castigo por ter tentado lutar contra Deus!”
19tu autem ne existimes tibi impune futurum, quod contra Deum pugnare tentaveris.
20Mais admirável que todos, porém, foi a mãe, digna de honrosa memória. Viu sete filhos morrerem no espaço de um só dia e suportou tudo com coragem por causa de sua esperança no Senhor.
20Supra modum autem mater mirabilis, et bonorum memoria digna, quæ pereuntes septem filios sub unius diei tempore conspiciens, bono animo ferebat propter spem quam in Deum habebat:
21Ela encorajava cada um deles na língua de seus antepassados, cheia de nobre espírito e unindo a seus sentimentos maternos uma coragem viril, dizendo-lhes:
21singulos illorum hortabatur voce patria fortiter, repleta sapientia: et, femineæ cogitationi masculinum animum inserens,
22“Não sei como vocês apareceram em meu ventre. Não fui eu quem lhes deu o espírito e a vida, nem fui eu quem organizou os elementos de cada um de vocês.
22dixit ad eos: Nescio qualiter in utero meo apparuistis, neque enim ego spiritum et animam donavi vobis et vitam, et singulorum membra non ego ipsa compegi:
23Portanto, o Criador do mundo, que formou a origem do ser humano e concebeu a origem de todas as coisas, em sua misericórdia devolverá novamente a vocês tanto o espírito como a vida, porque agora vocês desprezam a si mesmos por causa das leis dele.”
23sed enim mundi Creator, qui formavit hominis nativitatem, quique omnium invenit originem, et spiritum vobis iterum cum misericordia reddet et vitam, sicut nunc vosmetipsos despicitis propter leges ejus.
24Antíoco pensou que estava sendo desprezado e suspeitou que aquelas palavras fossem uma censura. Enquanto o filho mais novo ainda estava vivo, não apenas procurou persuadi-lo com palavras, mas também lhe prometeu sob juramento que o enriqueceria e o elevaria a grande honra se abandonasse os caminhos de seus antepassados. Prometeu ainda recebê-lo como seu amigo e confiar-lhe funções públicas.
24Antiochus autem, contemni se arbitratus, simul et exprobrantis voce despecta, cum adhuc adolescentior superesset, non solum verbis hortabatur, sed et cum juramento affirmabat se divitem et beatum facturum, et translatum a patriis legibus amicum habiturum, et res necessarias ei præbiturum.
25Como o jovem não lhe dava atenção de modo algum, o rei chamou a mãe e insistiu que aconselhasse o rapaz a salvar a própria vida.
25Sed ad hæc cum adolescens nequaquam inclinaretur, vocavit rex matrem, et suadebat ei ut adolescenti fieret in salutem.
26Depois de insistir com muitas palavras, ela concordou em persuadir o filho.
26Cum autem multis eam verbis esset hortatus, promisit suasurum se filio suo.
27Inclinando-se para ele e zombando do tirano cruel, falou na língua de seus antepassados: “Meu filho, tenha compaixão de mim, que carreguei você nove meses no ventre, amamentei-o por três anos, alimentei-o, criei-o até esta idade e cuidei de você.
27Itaque inclinata ad illum, irridens crudelem tyrannum, ait patria voce: Fili mi, miserere mei, quæ te in utero novem mensibus portavi, et lac triennio dedi et alui, et in ætatem istam perduxi.
28Eu lhe peço, meu filho: olhe para o céu e para a terra, veja tudo o que existe neles e reconheça que Deus os fez não a partir de coisas que já existiam, e que a raça humana veio à existência da mesma maneira.
28Peto, nate, ut aspicias ad cælum et terram, et ad omnia quæ in eis sunt, et intelligas quia ex nihilo fecit illa Deus, et hominum genus:
29Não tenha medo deste carrasco. Mostre-se digno de seus irmãos e aceite a morte, para que, pela misericórdia de Deus, eu receba você novamente junto com seus irmãos.”
29ita fiet, ut non timeas carnificem istum, sed dignus fratribus tuis effectus particeps, suscipe mortem, ut in illa miseratione cum fratribus tuis te recipiam.
30Antes que ela terminasse de falar, o jovem disse: “O que vocês estão esperando? Não obedeço ao mandamento do rei, mas ao mandamento da Lei que foi dada a nossos antepassados por meio de Moisés.
30Cum hæc illa adhuc diceret, ait adolescens: Quem sustinetis? non obedio præcepto regis, sed præcepto legis, quæ data est nobis per Moysen.
31E você, que inventou toda espécie de mal contra os hebreus, de modo algum escapará das mãos de Deus.
31Tu vero, qui inventor omnis malitiæ factus es in Hebræos, non effugies manum Dei.
32Nós sofremos por causa de nossos próprios pecados.
32Nos enim pro peccatis nostris hæc patimur.
33Se nosso Senhor vivo ficou irado conosco por pouco tempo para nos repreender e disciplinar, ele voltará a se reconciliar com seus próprios servos.
33Et si nobis propter increpationem et correptionem Dominus Deus noster modicum iratus est: sed iterum reconciliabitur servis suis.
34Mas você, homem profano e o mais perverso de todos, não se exalte inutilmente em seu orgulho selvagem com esperanças incertas, levantando a mão contra os filhos do céu.
34Tu autem, o sceleste, et omnium hominum flagitiosissime, noli frustra extolli vanis spebus in servos ejus inflammatus:
35Você ainda não escapou do julgamento do Deus Todo-Poderoso, que vê todas as coisas.
35nondum enim omnipotentis Dei, et omnia inspicientis, judicium effugisti.
36Estes nossos irmãos, depois de suportarem uma breve dor que conduz à vida eterna, agora morreram sob a aliança de Deus. Você, porém, pelo julgamento de Deus, receberá na medida justa os castigos de sua arrogância.
36Nam fratres mei, modico nunc dolore sustentato, sub testamento æternæ vitæ effecti sunt: tu vero judicio Dei justas superbiæ tuæ pœnas exsolves.
37Eu, assim como meus irmãos, entrego corpo e alma pelas leis de nossos antepassados, suplicando a Deus que rapidamente volte a ser misericordioso com nossa nação e que você, por meio de provações e pragas, confesse que somente ele é Deus,
37Ego autem, sicut fratres mei, animam et corpus meum trado pro patriis legibus, invocans Deum maturius genti nostræ propitium fieri, teque cum tormentis et verberibus confiteri quod ipse est Deus solus.
38e que, por meio de mim e de meus irmãos, você faça chegar ao fim a ira do Todo-Poderoso que justamente veio sobre toda a nossa raça.”
38In me vero et in fratribus meis desinet Omnipotentis ira, quæ super omne genus nostrum juste superducta est.
39O rei ficou furioso e tratou esse jovem pior do que todos os outros, exasperado com sua zombaria.
39Tunc rex accensus ira in hunc, super omnes crudelius desævit, indigne ferens se derisum.
40Assim ele também morreu puro, colocando toda a sua confiança no Senhor.
40Et hic itaque mundus obiit, per omnia in Domino confidens.
41Por último, depois dos filhos, morreu a mãe.
41Novissime autem post filios, et mater consumpta est.
42Basta, portanto, o que foi dito sobre os banquetes sacrificiais e as torturas extremas.
42Igitur de sacrificiis et de nimiis crudelitatibus satis dictum est.

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